Geração perdida: celebridades do Snapchat e o lado virtual e divertido da vida real

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No coração da Avenida Paulista, em São Paulo, um jovem assiste animado, com o celular na mão, a um cover de Elvis Presley cantando ‘Jailhouse Rock’. Ali por perto, uma garota tira fotos rapidamente na faixa de pedestre, enquanto um rapaz que acaba de sair do cursinho checa o celular encostado na mureta de um prédio. Além da pouca idade e do lugar, o que eles têm em comum é o Snapchat, misto de rede social e aplicativo de fotos e vídeos, que já ganhou um espaço cativo nos celulares dos jovens.

Na maior parte do tempo, o brilho que sai dos smartphones têm o azul do Facebook ou o verde do WhatsApp, usados com mais frequência e por mais tempo para falar com os amigos e acompanhar notícias. 
O amarelo do Snapchat aparece nas telas de repente – seja para registrar um momento inusitado ou para saber o que o amigo, a paquera ou a celebridade favorita está fazendo. A instantaneidade faz as pessoas usarem muito o aplicativo, mas em pequenos intervalos de tempo. Segundo a consultoria Nielsen, 60% dos 35 milhões de usuários do Snapchat nos Estados Unidos abrem o app pelo menos uma vez por hora. No total, o app acumula mais de 150 milhões de usuários no mundo.
Visão. Como outras redes sociais de sucesso, o Snapchat nasceu dentro de um quarto de universidade. Isso aconteceu em Stanford em 2011, onde moravam os cofundadores da rede: Evan Spiegel, Bobby Murphy e Reggie Brown.

Desde então, o aplicativo já recebeu ofertas de gigantes como Facebook (US$ 3 bilhões, no final de 2013) e Google (US$ 4 bilhões, em 2014), mas Spiegel – que é o presidente executivo da startup – as recusou em prol de manter a independência do serviço, que já mostrava seu potencial. Hoje, o Snapchat tem valor de mercado estimado em US$ 19,3 bilhões.

Na última semana, a empresa deu seu passo estratégico mais importante até o momento. A empresa mudou de nome – tornou-se apenas Snap – e revelou os Spectacles, par de óculos escuros com design “fashion” capazes de gravar vídeos curtos. Com unidades limitadas, o acessório chegará ao mercado até o final do ano, por US$ 130. Mais que um vestível, os óculos mostram a nova visão da empresa: ser uma referência em vídeos em qualquer plataforma.

“É uma estratégia contemporânea, à moda do Uber e Airbnb”, diz José Calazans, analista da consultoria Nielsen. “Quem oferece um produto ou serviço pode ficar ultrapassado.” A Ford adotou estratégia semelhante. Nos últimos meses, o presidente executivo Mark Fields a define como uma empresa de mobilidade – e não mais como uma montadora.

Para Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), o reposicionamento mostra o paradoxo vivido pelo Snapchat hoje. O fato de não salvar mensagens, ser imediato e exigir conhecimento em gravação de vídeos fazem com que o app atinja um nicho: os jovens.

“O Facebook é fácil de usar, mas tem todo mundo. Nem sempre falar com muita gente – incluindo pais e avós – é legal”, diz Steibel. Para se tornar rentável, porém, o app precisa ampliar sua base de usuários. Só assim poderá entrar na guerra de publicidade com Google e Facebook. 
‘Brilho Eterno’. Não é só por ser um clube da juventude que o Snapchat conquista usuários. Giovanni Perestrelo, o garoto sentado na mureta da Avenida Paulista, viu na volatilidade do app uma forma de não ter mais seu coração partido.

Em 2014, ele terminou um namoro e, desiludido, apagou todas as fotos que tinha com a ex-namorada no Facebook. “Um amigo me viu fazendo isso e indicou o Snapchat”, diz Perestrelo, de 19 anos. “Ele disse que lá eu não teria problemas de apagar as fotos antigas, já que elas somem depois de 24 horas.”

Apesar do atrativo inicial, o que fisgou o estudante foi o potencial criativo do app. “Você tira a foto de um lago e pode desenhar um pato ou colocar uma imagem sua flutuando, nadando, tudo de forma fácil.”

A sensação de proximidade que o Snapchat gera entre usuários é um de seus chamarizes. Rebecca Lyria – a garota que tirava fotos na faixa de pedestres – é de Ribeirão Preto e registrou a chegada a São Paulo com uma foto “produzida” no Facebook. “Aquela foto vai ficar marcada no meu perfil”, afirma a jovem. O resto da viagem, porém, vai para outro app. “No Snap, estou descabelada, suada de tanto andar. É a Rebecca de verdade que as pessoas conhecem.”

Para muitos usuários, alguns momentos são apenas entretenimento instantâneo. É o caso de Anderson Alves, o estudante de administração que parou para ver o cover de Elvis. 

Na mesma hora em que o homem de topete, óculos Ray-Ban e roupas brilhantes começou a tocar Jailhouse Rock, o rapaz de 22 anos sacou o celular do bolso, entrou no Snapchat e começou a filmar a apresentação. Mas por quê? 

“Não quero que o Elvis da Paulista fique registrado na minha vida”, afirma o rapaz, em tom de obviedade. “Daqui a 24 horas, não vou ter mais relação com ele. Se eu tivesse postado no Face, não seria assim.”

Diz o ditado que tudo que vem rápido também pode ir embora rápido. O sucesso do Snapchat corre esse risco, especialmente porque o público do aplicativo é formado por jovens, que trocam de app como de roupa. O desafio da empresa é provar que seus atuais 150 milhões de usuários não estão errados.

Pose ‘superstar’ de Spiegel é oposta à de Zuckerberg

 A rivalidade entre Snapchat e Facebook vai muito além de recursos e estratégia: seus criadores também são muito diferentes. Ao contrário do minimalismo de Mark Zuckerberg – que parece estar sempre com a mesma camiseta e calça jeans, seguindo a tendência de Steve Jobs –, Evan Spiegel se projeta como um ícone de estilo, é noivo de uma supermodelo e posa como um astro de cinema dos anos 1960. “As fotos dele no ensaio que revelou os óculos do Snapchat mostram essa postura de ‘superstar’”, diz José Calazans, analista da Nielsen. “A impressão é que depois da monotonia de Jobs e Zuckerberg, ele quer atrair pelo colorido.”

O local da sede do Snapchat é outro diferencial: Venice Beach, em Los Angeles – perto de Hollywood e mais de 600 km distante do Vale do Silício. “O Snapchat quer ser um app de estilo, não voltado para o nerd”, diz Fabro Steibel, diretor executivo do ITS-Rio, que lembra a presença do app em eventos.

Novas celebridades da rede social


O jornalista Rafael Uccman não era um total desconhecido na cidade de 60 mil habitantes. Com o uso do Snapchat ele ganhou fama instantânea na internet. “Hoje, meus vídeos são visualizados entre 250 mil e 350 mil vezes”, afirma. “Tenho 350 mil pessoas na palma de minha mão.”

Uccman criou sua conta em 2014 e, como muitos, não entendia o funcionamento do app. “Não sabia o porquê de uma rede social com fotos e vídeos que duram só 10 segundos e depois somem”, diz ele, que deu uma chance para a rede em novembro do ano passado.

Com vídeos sobre ir no cabeleireiro e divas pop como Taylor Swift, o snapchater (nome dado às pessoas influentes na rede social) acabou conquistando não só o público que usa o aplicativo, mas também os fãs de Instagram e Facebook. Isso para não falar na amizade de outras celebridades. “Tenho fãs de todas as idades. Da Gabriela Pugliesi até a Larissa Manoela”, afirma a celebridade. “E eu não estou mentindo!”

Informações via Estadão

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